Blog sobre cinema e o universo cinematográfico, principalmente o cinema europeu, asiático e independente, optando por abordar os filmes que não fazem parte do circuito conhecido como comercial.



domingo, 4 de abril de 2010

Control (Control) - 2007



“A existência... Bem... O que importa? Eu existo da melhor forma possível. O passado, agora faz parte do meu futuro. O presente está fora de controle.”

Incio do filme, narração em off de Ian Curtis



Com relação a capa ou pôster deste filme, eu vi várias versões, todas com o ator que interpreta o Ian Curtis em destaque, as vezes em pé, as vezes sentado ou no palco, com a tipografia sem serifa em várias cores, branco, vermelho e rosa. Essa capa que estou colocando no blog é a que eu mais gosto, como é uma cine-biografia apresenta em destaque o protagonista, e a tipografia em rosa deu um destaque maior ao nome, mesmo porque o filme é monocromático, achei que ficou bom essa coisa de utilizar esse elemento com cor na capa.

Trilha sonora muito bem selecionada, composta pelas bandas, Buzzcock, David Bowie e Iggy Pop que influenciaram o personagem retratado, o vocalista Ian Curtis, da Banda Joy Division, que também está presente na trilha sonora, obviamente que vai agradar quem gosta do estilo, o que por se tratar de uma cine-biografia de um integrante de uma banda do estilo, atrai pessoas que gostem desse tipo de música.

Não possui crédito inicial, mas possui no final, fundo preto, letras brancas sem serifa, exploram um efeito em que a tipografia pisca de maneira disforme, acredito que na intenção de simular o efeito do estroboscópio, aparelho muito utilizado para efeitos de iluminação em show’s e boates.

Com relação as atuações, posso dizer que achei muito boas, a começar pelo estreante Sam Riley, que interpreta Ian Curtis, que além de desempenhar bem o seu papel é realmente parecido com o real Ian Curtis e que também é músico. Samantha Morton faz uma participação modesta no filme como a esposa do cantor. Toby Kebbell, que faz o papel do produtor da banda, e que eu particularmente gosto das interpretações dele, pra quem não sabe quem é, é o personagem Johnny Quid do Rock’n’Rolla, ele incorpora bem o tipo doidão. E por fim, Alexandra Maria Lara que interpreta a amante de Ian, Annik Honoré, que eu não sei se ela é má atriz ou se é como deveria ser a personagem mesmo, meio apática, sem sal, até bonita a moça, mas bem sem graça, até mesmo porque o filme é inspirado no livro da esposa de Ian, o que pode ter influenciado nesta caracterização.

Bem, a história é simples, acho que vai agradar mesmo quem gosta da banda ou quem gosta de cine-biografias e histórias reais.

O filme acompanha os últimos anos de Ian Curtis (Sam Riley), vocalista da banda Joy Division, que depois da morte do mesmo, os integrantes restantes iriam formar a banda New Order. Mostra o seu casamento prematuro, e os conflitos ocasionados por um triangulo de relações entre Ian, sua esposa Debbie Curtis (Samantha Morton) e Annik Honoré (Alexandra Maria Lara), uma jornalista ocasional que Ian conhece em um show e passa a ter um caso com ela. Mostra um Ian Curtis frágil e imaturo, ao mesmo tempo que quer continuar casado, quer continuar com a amante, e não consegue se resolver com nenhuma delas, criando para si mesmo uma situação de conturbação. Tem até uma cena que me chama atenção, que mostra o personagem como uma criança ao ser repreendido pela mãe, na cena Ian chega em casa e sua esposa, após descobrir que ele possivelmente está tendo um caso, começa a lhe questionar quem era a tal Annik e a quanto tempo ele está tendo um caso com ela, e Ian simplesmente abaixa a cabeça e não responde nada, ficando completamente silencioso, o que obviamente faz com que sua esposa se sinta incomodada e ignorada, então ela vai ficando cada vez mais enérgica e querendo saber porque ele a está ignorando e não responde suas perguntas e ai ela grita com ele, mas o comportamento de Ian é tão infantil que a cada berro ele recua um pouco e vai abaixando a cabeça sem responder nada, exatamente como uma criança quando a mãe o xinga por alguma desobediência.

Com certeza, coisas como está podem desagradar os fãs que construíram uma imagem de Ian Curtis através de leituras em revistas e fanzines por aí. Eu por exemplo tinha uma idéia bem diferente dele do que é mostrado no filme, imaginava um homem totalmente depressivo, maluco, doidão, beberrão e junker, mas o filme não tem nada disso, a única droga que ele usa são os remédios para epilepsia e não me pareceu tão depressivo como o pintam, apenas um cara introspectivo. Não mostra também uma coisa que normalmente se fala muito, a sua obsessão pelo nazismo, para quem não sabe o nome Joy Division, se refere a um bordel alemão freqüentado pelos nazistas nas suas horas livres. Então isso pode desagradar um pouco.

Vemos também a descoberta da epilepsia e como isso contribuiu para sua conturbação, o medo de não conseguir controlar a doença, de piorar, os remédios que ele tinha que tomar e que não eram poucos e tinham vários efeitos colaterais indesejáveis.

O filme também apresenta a ascensão da banda, e os ataques de Ian no palco, o que acabou fazendo com que ele desenvolvesse a sua característica dança, como se estivesse tendo um ataque, o que o ator soube fazer muito bem, a suas crises de pânico com relação a multidão, o que acabou por favorecer mais ainda o seu estado de descontrole e conturbação mental.

É interessante perceber que as letras das músicas normalmente eram inspiradas pelos momentos de sua vida, e o roteirista soube explorar bem o recurso de usar as letras da banda como artifício narrativo, e percebemos que ele mesmo em suas letras já apresentava indícios de estar perdendo o controle, como na musica “Control”, que provavelmente dá nome ao filme, e em outras que ele passa essa sensação de não estar lidando bem com a realidade e com os acontecimentos de sua vida. A própria música do Joy Division (para quem já ouviu talvez consiga compreender o que eu vou dizer), já é depressiva, eles realmente conseguiram passar essa sensação na música.

Bom, o que realmente chama atenção no filme e faz valer muito apena assistir é a fotografia, o filme é todo em preto e branco, assim como os clipes e fotos da banda, o que não poderia ser diferente, uma vez que o diretor de fotografia, que também é o diretor Anton Corbijn, especializado no cenário musical, é o responsável pelas fotos mais famosas do Joy Division. Em sua estréia como diretor do longa, consegue criar cenas e enquadramentos muito bonitos, como a cena que Ian esta dirigindo um carro na rodovia e a luz do sol bate em seu rosto, criando um contraste de extrema claridade e o rosto fica como uma silhueta, sem contar alguns planos abertos em que mostra Ian e Debbie no centro da rua, muito bem feito e de bom gosto. O diretor já dirigiu videoclipes de bandas como Depeche Mode, U2, Nirvana e Johnny Cash.

No geral, acho que vale a pena conferir, tem muito mais qualidades do que defeitos, que talvez estejam mais na interpretação e aceitação da história. Boas atuações, excelente fotografia, boa trilha sonora e uma história real que nos faz pensar um pouco como a vida é, muitas vezes cheias de reviravoltas. Sem contar que a banda Joy Division foi referencia para bandas novas como Interpol, She Wants Revenge, The Killers e muitas outras.

Ian Curtis morreu em 18 de Maio de 1980 com 23 anos.

O baterista Stephen Morris contou aos jornalistas no Festival de Cannes como se sentiu quando soube que Curtis se enforcara:

“Acho que foi um choque, mas o que eu realmente senti foi muita raiva. Raiva por ele ter sido tão estúpido.”

“Quando uma pessoa comete suicídio, deixa um monte de perguntas sem respostas para as pessoas que sobram, e as fere muito mais.” Completou.

E como não poderia faltar minhas indicações finais, aconselho principalmente para quem curte a história da banda, quem gosta de música em geral, críticos e todas as pessoas que trabalham diretamente com música, seja como crítico, jornalista ou membro de uma banda. Primeiro por referencia e segundo por se tratar de um cantor de uma banda que fez história e influenciou e influencia até hoje muitas bandas, mas recomendo também para todas as pessoas que gostam da sétima arte, de uma pipoquinha com refri gelado e um filme agradável de se ver.


Ficha Técnica:

Título no Brasil: Controle-A História de Ian Curtis / Título Original: Control
País de Origem: EUA/Inglaterra / Gênero: Drama,Cine-Biografia
Tempo de Duração:121 min / Ano de Lançamento:2007
Estúdio/Distrib.: The Weinstein Company / Daylight Filmes
Direção: Anton Corbijn


Elenco:
Sam Riley (Ian Curtis) / Samantha Morton (Deborah Curtis) Craig Parkinson (Tony Wilson)
Joe Anderson (Peter Hook) / Nicola Harrison (Corrine Lewis)
Toby Kebbell (Rob Gretton) / Alexandra Maria Lara (Annik Honoré)
Matthew McNulty (Nick Jackson)/ Ben Naylor (Martin Hannett)
James Anthony Pearson (Bernard Sumner) / Tim Plester (Earnest Richards)
Robert Shelly (Twinny) / Andrew Sheridan (Terry Mason)
Harry Treadaway (Stephen Morris) / Nigel Harris


Sinopse:

Drama biográfico baseado no livro escrito por Deborah Curtis sobre o marido Ian Curtis (Riley), o enigmático cantor e líder da banda britânica Joy Division. Além dos detalhes pessoais e profissionais, o filme descreve os romances e a forte personalidade do jovem, que o levou a cometer suicídio aos 23 anos de idade.

Black Mama, White Mama (Black Mama, White Mama) - 1972



Vou começar pela capa, só que dessa vez farei um pouco diferente, vou comentando as atuações e os outros aspectos a medida que eu for apresentando os comentários. Bem a capa é muito boa, uma ilustração mostrando as personagens atacando um policial, apesar dos desenhos não remeterem muito as atrizes, tem tudo haver com o filme, sem contar que como já estamos habitados ao comum, que são capas e pôsteres com fotos, uma ilustração bacana é sempre bem vinda, e também porque era comum capas com ilustração até a metade da década 80.

Para quem procura um filme inteligente, com narrativa toda amarrada, passe longe deste filme, agora para quem procura uma produção tosca, chacota e com narrativa totalmente nonsense, pode assistir sem medo de errar.

Sobre o estilo do filme, tem características de WIP (Womans in Prison), ou seja mulheres na prisão, flerta também com o sexploitation/exploitation, filmes “B” dos anos 70 com uma temática mais erótica, e alguns caracterizam como blaxploitation, filmes protagonizados por negros na intenção de competir culturalmente com os brancos, que eu acho que não se aplica neste caso, pois o filme não envolve somente a Black Mama do título, mas também a White Mama. Então é difícil caracterizar, apresentando aspectos de todos esses estilos “B”. Vendo hoje acho que deveria ser classificado como comédia.

Outra coisa que me chama atenção e que eu não consigo engolir é o nome Black Mama, White Mama. Beleza, tem uma personagem negra Lee Daniels (Pam Grier), e uma loirinha, ou melhor seria dizer uma loirona (o cabelo da mulher é gigante) tipo das crentes e testemunhas de Jeová) Karen Brent, interpretada por Margaret Markov, agora mama, de quem? Totalmente sem sentido o nome. Deve ser algo pessoal do diretor e do produtor.

Antes de começar a falar da história eu tenho uma coisa comigo sobre esses filmes, só de olhar pra cara do povo e os tipos, cabelo, jeito de andar, as roupas, tá na cara que são feitos normalmente pelos ripongas, e é a maior diversão ver em turma tomando uma cerveja, e pra quem segue o estilo de vida hippie, com o efeito da tal Maria Joana na cabeça é divertimento garantido, mesmo porque eu acredito que é sobre o efeito dessas plantinhas que eles faziam essas pérolas.

Bom, a história começa com algumas mulheres sendo levadas para uma prisão feminina, numa ilha nas Filipinas, chegando lá elas já são confrontadas com a policial linha dura Densmore (Lynn Borden), que além de ser durona, é possivelmente ninfomaníaca, não perde a oportunidade de espiar as detentas tomando banho e de passar uma cantada nas presidiárias. De primeira, uma coisa já chama atenção, as mulheres indo para a cadeia vestidas como se estivessem indo para uma festa, todas arrumadinhas. Depois de darem entrada na prisão e fazerem a sua limpeza, numa cena que vemos as mulheres nuas tomando banho, com a policial Desmore espiando é claro, elas vestem a roupa da prisão, que pasmem, são tipo só blusas compridas, tipo aquelas blusas que mulheres usam como camisola, blusas grandes, totalmente surreal para uma prisão.

Mas a policial Densmore, não dá descanso para as detentas, pode ser de dia ou de noite ela tá sempre querendo dar “um pega” nas coitadas. Primeiro ela convida Lee Daniels (Pam Grier), para uma conversinha em particular no seu quarto, e o mais interessante, antes disso vemos em uma cena com as detentas fumando um cigarrinho de maconha (kkkkkk) dentro da cadeia como se estivessem no quarto, totalmente sem noção (e parece que não mudou nada até hoje), então Densmore tenta seduzir Daniels, que recusa.

Depois da tentativa frustrada para cima de Daniels ela decide investir na loirinha Karen Brent (Margaret Markov), que aceita a cantada para ficar numa boa com a carcereira, e não ter problema.

O mais interessante é que Daniels fica puta com Karen, sem o menor motivo, tipo elas não eram namoradas e nem nada, qual o motivo dela ficar com raiva, sentido aqui é o menos importante (kkkkk), então elas começam a desenvolver uma rivalidade por conta disso. Até vemos uma briga tosca, como não poderia deixar de ser, das duas no refeitório. As duas são pegas e é dado a sentença pela chefona do presídio (que curiosamente tem um caso com a carcereira Densmore), três dias na solitária, e ai vemos uma cena muito cômica, a tal solitária, é uma cubo de concreto construído numa plantação, onde as detentas nuas ficam de costas uma para a outra sem poder sentar, porque só cabem duas pessoas em pé, com o sol batendo o dia inteiro, é tipo uma estufa (kkkkkk).

As duas atrizes fazem um par, com atuações até muito boas, com direito a cenas de luta no meio do mato, dando para ver as calcinhas e tudo mais (kkkkkkk), coisa comum em filmes do gênero e que aqui foram até modestos, sem contar que a coreografia é de dar inveja de tão tosca.

Continuando a história elas fogem com a ajuda de um grupo guerrilheiro, amigos de Karen, que no decorrer do filme descobrimos que é uma patricinha metida a revolucionária, mas como o filme não da muita atenção para o sentido da história, não sabemos o motivo real da sua guerrilha, e os guerrilheiros estão atrás de um carregamento de armas, para continuar na sua luta armada, só não sabemos contra o que realmente e o porque eles estão atrás de tanta arma, mas isso não importa, o importante pros diretores é fazer uma filme, mesmo que ele não tenha lógica nenhuma.

O filme vai se desenrolando daí até o final com a fuga das duas, que curiosamente parece que influenciou um outro filme conhecido, A Caçada, com Laurence Fishburne e Stephen Baldwin, filme de 1996, onde dois fugitivos de uma penitenciaria tem que ficar sempre juntos por estarem acorrentados, mesma coisa que neste Black Mama, White Mama.

Muito embora elas não queiram estar juntas e tenham planos de fuga diferentes, devido a corrente vão ter que seguir juntas, em meio a brigas e tapas na cara (risos), elas vão se entendendo pelo caminho e vão se tornando amigas, e porque não dizer inseparáveis.

Só que o roteiro vai além, e aparece uma série de novos personagens para caçá-las. Tem o chefe da bandidagem que foi roubado por Daniels e ele quer reaver o seu dinheiro, tem o malandro que tá metido com a polícia, Ruben (Sid Haig), que pra mim rouba a cena do filme, e é de longe a melhor atração, só vendo para acreditar no naipe do cara, roupinha de cowboy azul piscina, é mole? E tem o chefe dos guerrilheiros, amigo de Karen, que sempre se sai bem nos confrontos com a polícia, além de outros caçadores.

Outra coisa que é chacota no filme é o carro que a quadrilha de Ruben usa, uma espécie de Kombi, cheia de franjinhas e badulaques bem bregas mesmo, no estilo espalhafatoso dos mexicanos, é de doer de tão barango.

Bem, daí em diante vemos só confrontos, entre os que querem pegar as fugitivas. E obviamente, a fuga das duas pelas matas da ilha, tudo muito nonsense, e mau feito, até mesmo porque já acostumamos a ver coisas muito melhores, mas naquela época devia mesmo até convencer alguns. E pérolas em forma de diálogos, muito típico nos filmes do Tarantino, como na cena em que vemos o bando dos guerrilheiros encontrar com o bando de Ruben, e Ruben pergunta se viram os cachorros dele, no que é respondido pelo chefe dos guerrilheiro, vi sim e eles se parecem com o dono (kkkkkkkkkkkkk).

O desfecho é até interessante e surpreende, embora sem necessidade, mas não vou contar para não estragar a brincadeira.

Pra finalizar, a trilha sonora tem hora que não faz sentido nenhum, tem momentos que colocam uma trilha de suspense e não acontece nada, os caras entram no carro e vão embora, porque a ação já tinha se passado, parece até que é feito com a intenção de fazer tudo errado e sem sentido, o que talvez até seja, até mesmo por causa disso que o filme é engraçado.

Vocês podem estar se perguntando por que colocar uma aberração dessas aqui no blog? Uma porque eu gosto dessas coisas horríveis, é mais engraçado que as comédias de hoje, tipo Todo Mundo em Pânico, duas porque hoje são considerados “Clássicos” do cinema “B”, com uma infinidade de blogs e pessoas que se interessam por este estilo, sem contar que um pouco de diversão é sempre bom não é mesmo? E não mata ninguém.

Compre umas cervejas, chame os seus amigos, prepare um tira gosto no domingo a tarde, porque vale a pena assistir e rir com a galera. Agora para os que são muito sérios e não aceitam esse tipo de cinema, vão assistir UM HOMEM SÉRIO, que como o próprio nome já diz, deve ter sido feito como uma comédia para homens sérios (kkkkkk), filme pretensioso e chato dos irmãos Cohen, que estava até concorrendo ao Oscar deste ano, mas eu prefiro essa comédia tosqueira aqui.


Ficha Técnica:



Título no Brasil: não foi lançado no Brasil / Título Original: Black Mama White Mama
País de Origem: EUA/Filipinas / Gênero: Drama/Thriller/Crime
Tempo de Duração: 87 minutos / Ano de Lançamento: 1972


Elenco:
Pam Grier ... Lee Daniels / Margaret Markov ... Karen Brent / Sid Haig ... Ruben
Lynn Borden ... Matron Densmore / Zaldy Zshornack ... Ernesto
Laurie Burton ... Warden Logan / Eddie Garcia ... Capt. Cruz / Alona Alegre ... Juana
Dindo Fernando ... Rocco / Vic Diaz ... Vic Cheng / Wendy Green ... Ronda
Lotis Key ... Jeanette / Alfonso Carvajal ... Galindo / Bruno Punzalan ... Truck driver
Subas Herrero ... Luis (as Ricardo Herrero)

Sinopse:

Em uma remota ilha na América do Sul , Lee Daniels (Pam Grier) , é a namorada do maior cafetão e traficante de drogas da região , e ela simplesmente fugiu com $ 40.000,00 dólares do seu dinheiro . Karen Brent (Margaret Markov) , é um dos principais membros do grupo anarquista local . Lee e Karen são duas das mais novas detentas em uma penitenciária feminina na ilha . Lá Lee se recusa , mas Karen aceita prestar " favores sexuais " a uma das administradoras do presídio , em troca de regalias , causando a primeira desavença entre as duas.



Mas certo dia , no transporte das detentas , o ônibus é emboscado pelo grupo revolucionário ao qual Karen faz parte , elas conseguem fugir . Só que agora , estão presas uma à outra por uma corrente e desejam seguir direções diferentes na fuga . Estoura uma Revolução na Ilha e o poderoso cafetão deseja não só o seu dinheiro de volta , como a cabeça de Lee como prêmio .

domingo, 28 de março de 2010

Defensor (Defendor) - 2009



Vou começar diferente dessa vez, vou começar pelos créditos. O filmes não tem créditos iniciais, mas os créditos finais são muito bem feitos, os nomes vão passando pela tela utilizando de tipografia sem serifa, na cor brancas com fundo preto, enquanto vemos imagens de bolinhas de gude e outros instrumentos que o personagem principal utiliza como arma durante o filme, muito bom.

A trilha sonora é bem composta, principalmente a música que embala os momentos de ação, e capta o espírito do herói e também o estilo de filmes de quadrinho.

A capa do filme eu não achei nada demais, com a foto de Wood Harrelson, como o herói, ou melhor, suposto super-herói do filme. Não tem como fugir do conceito, pois utiliza uma foto do próprio filme, mas não tem nada de especial, cumpre o seu papel, e como já disse a adequação é o que realmente importa.

Já a atuação fica a cargo basicamente de três pessoas, Wood Harrelson, que como sempre está muito bem no papel, consegue criar expressivamente cenas realmente engraçadas no filme, que pra mim está mais para drama do que comédia. A guria Kat Dennings, faz um papel meio batido no cinema, da prostitutazinha abusada pelo pai que se mete nesse submundo para manter seu vício, já vi tanto esse tipo de personagem que nem presto muito atenção. Então, de um tempo pra cá, pra mim tanto faz se a atuação foi boa ou não, porque não presto muito atenção mesmo, a não ser é claro se a atuação for formidável e roubar a cena, ai sim. Elias Koteas faz um policial meio bocó, que eu acho que foi até bem interpretado, muito embora eu não consiga definir se é devido a ele ser daquele jeito mesmo ou se o ator definiu bem o papel daquela forma, seja como for, ficou interessante em sua parceria com um maluco que acredita ser um super-herói.

A premissa do filme, embora simples, mas até certo ponto original, trata de um homem que acredita ser um super-herói, e como tal não poderia deixar de combater o crime, e está em busca de seu arqui-inimigo o Dr. Indústria.

Muito embora eu não tenha achado o filme realmente cômico, considerando o cerne da questão, está mais para drama mesmo. Eu gostei, por sua originalidade em mostrar o que seria um homem com problema mental, que a psicóloga no filme diagnostica como Síndrome alcoólica fetal, déficit de atenção, depressão, megalomania, incapacidade de prever conseqüências, séria ausência de bom senso e imaturidade social, o que pode ser até discutido, eu mesmo não concordo muito, mas daí já podemos imaginar o plano de fundo da trama.

Não tenho muita coisa a dizer. Como manda o figurino, as comédias normalmente criticam algo, e nesse caso eu pude identificar não muitas, mas algumas, como por exemplo, não importa o quanto o cara seja inofensivo e talvez esteja até certo, o comportamento dele e a forma como ele lida com o problema é taxado de loucura e retardamento pela sociedade que se julga normal, até mesmo o telespectador, pelo menos comigo foi assim, vê no personagem um cara completamente molóide, primeiro pela roupa do cara, que tem um “D”, de Defendor, o nome do super-herói criado pelo personagem de Wood Harrelson, quando está defendendo a cidade dos criminosos, escrito com silvertape, depois por ter um capacete de construção civil com uma laterna ligada pregada na lateral do capacete, pois o mesmo grava a suas ações, ou seria melhor dizer suas trapalhadas, e é tão molóide, que quando está escondido na escuridão, quer que ninguém o veja, mas está sempre com a luz do capacete acesa, se não fosse uma comédia ia ser motivo de falar mal, mas nesse caso esses detalhes contribuem para a narrativa. Mas a crítica está em olharmos as aparências e nos esquecermos de olhar os fins, como diz o ditado “a vestimenta não faz o monge” ou “quem vê cara, não vê coração”, que nesse caso poderia ser “quem vê o comportamento se esquece das finalidades”, sei que essa foi horrível, mas como o comentário é de um filme de comédia, sei que vão me perdoar (risos).

A segunda crítica é a de que ninguém faz nada, a polícia não resolve, o governo não faz nada e a justiça muito menos, que está mais preocupada em prender o molóide do que em prender os bandidos. Isso sem contar as burocracias, fazendo com que o nosso super-herói tenha que gravar uma fita mostrando os bandidos bolando o plano, em uma das cenas cômicas do filme, e outra nos mostra ainda como que um cara completamente lerdo consegue gravar uma cena dessas, que só não ficou boa como prova porque o equipamento era ruim. Ele faz algo que a pólica não consegue ficando dias, meses e até anos fazendo grampos e infiltrando policiais com essa finalidade. É realmente para rir, sem contar que é uma verdade, os telejornais nos mostram isso o tempo inteiro com suas câmeras escondidas.

Neste cenário em que se encontra a população a Deus dará e abandonado por aqueles que deveriam nos ajudar, surge DEFENDOR (Wood Harrelson), o herói da história, que vai lutar contra o crime, impulsionado mais por suas motivações pessoais, que é vingar a morte de sua mãe, uma drogada supostamente assassinada pelo Dr. Industria, um chefão das drogas, da prostituição e do crime organizado na cidade. No decorrer do filme tudo indica que o cara nem seja o assassino, mas como o nosso herói tem vários probleminhas de cabeça, ele associa todo cara que lida com isso como o assassino de sua mãe, o que não importa realmente se é mesmo, o que não deixa de ser verdade também, porque o filme está criticando no fundo a industria das drogas e prostituição. Defendor tem a ajuda de uma garota que o faz acreditar que o Dr. Industria em questão é o cara que ele procura, então ele parte para sua vingança. O mais engraçado é que o policial Chuck Dooney, que desde o começo do filme tromba com o Defendor, é um policial corrupto, que está envolvido com o suposto Dr. Industria, e o cômico é que o cara sempre se ferra com o nosso intrépido herói que faz dele gato e sapato. Aqui rola uma inversão de papéis, o cara bobão que normalmente nunca ia conseguir pegar ninguém, sempre se sai bem com o policial sujo e criminoso, o que normalmente não acontece nos filmes de ação e aventura. O mais cômico são as armar utilizadas por Defendor, que vão desde bolinhas de gude, usadas tanto para jogar nos criminosos com para que eles escorreguem, quem não se lembra de “Os Trapalhões” na Globo domingo a noite, passado por uma espécie de porrete meio clave, a vespas, não precisa nem dizer que o nosso amigo policial, sofre com todas elas, isso tudo porque o nosso herói tem um probleminha com armas, que ele deixa claro quando diz “ARMAS SÃO PARA COVARDES” (risos).

Outra coisa cômica no filme é o fato de que o nosso herói vive sendo surrado pelos capangas do Dr. Industria.

Mas no decorrer do filme, o telespectador acaba simpatizando com o personagem, e mudando de opinião com relação a ele. Assim como a sociedade, no filme vai criando uma certa conivência com suas ações, até mesmo porque não tem ninguém cumprindo efetivamente esse papel, nós também vamos gostando dele e vamos ficando tanto sensibilizados como indignados com o fato de quererem acabar com as ações de combate ao crime efetuadas pelo herói, e obviamente não queremos que ele morra, o que a cada momento achamos que vai acontecer, porque o homem é maluco, principalmente depois que ele cisma com a idéia de que ele é a prova de balas, após, um policial disfarçado atirar nele com balas de borracha.

Vale a pena a diversão, só não esperem um filme para morrer de rir, diria ser um filme com um humor mais negro, mais “ácido”, mas uma boa diversão para um domingo a noite, no horário do chato e desinteressante Fantástico ou quem sabe da porcaria do Big Brother. Eu com certeza sou mais assistir esse filme do que encarar essas duas aberrações da televisão, ou melhor, eu prefiro assistir qualquer filme no lugar desses programas, que só não vou chamar de programa de índio, porque tenho respeito pelas culturas dos povos indígenas e não vou rebaixá-los a tanto, mas fica ai a dica, pipoquinha e refri para quem gosta domingão a noite.




Ficha Técnica:

Título Original: Defendor / País de Origem: Canada/USA/UK / Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 95 minutos / Ano de Lançamento: 2009
Estúdio/Distrib.: Darius Films / Direção: Peter Stebbings

Elenco:

Woody Harrelson - Arthur Poppington / Defendor / Kat Dennings - Kat
Elias Koteas - Chuck Dooney / Sandra Oh - Dra. Park
Charlotte Sullivan - Fay Poppington / Michael Kelly - Paul Carter
Lisa Ray - Dominique Ball / Kristin Booth - Wendy Carter
Dakota Goyo - Jack Carter /Tatiana Maslany - Olga


Sinopse:

Uma comédia centrada em torno de três personagens: um homem comum que chega a acreditar que ele é um super-herói, seu psiquiatra, e ele se torna amigo do adolescente.

Hounddog (Hounddog) - 2007



Começando pela capa como é de costume. Ao meu ver não tem muito o que comentar, montagem com cenas do filme, a minha interpretação pessoal da construção conceitual, é mostrar na imagem maior a personagem principal com uma cobra (filhote no caso), no filme a cobra me parece ser uma metáfora (leia até o final para saber qual é a simbologia), então essa garota em relação a cobra está em uma posição de domínio e superioridade. A foto inferior me lembra uma cena de um casal adulto, porém nitidamente vemos que são duas crianças, na cena que originou esta foto, vemos a menina se vestindo com as roupas da tia, o que pode simbolizar a menina-mulher ou a sua busca e transformação em mulher. Achei de bom gosto a organização da tipografia e o tipo de tipografia usada no título, não tem como fugir do conceito do filme porque a capa foi criada com imagens do mesmo.

Crédito normais. O padrão, tipografia sem serifa na cor branca, sobreposta as filmagens do filme, espero que as pessoas não achem chato esse tipo de comentário, mas é só para constar que estou atento, para não pensarem que eu esqueci.

Trilha sonora, excelente, um blues de primeira. Eu particularmente gosto, e totalmente a ver com o filme, até mesmo porque é apresentado no filme essa questão da música branca e negra.

Boas atuações. O filme inteiro gira em torno da personagem de Dakota Fanning, o que ela soube fazer muito bem. É uma garota que sempre teve boas atuações. Robin Wright Penn, que é especializada nesse tipo de papel e vive aparecendo em filmes com esses tipos melodramáticos e fragilizados. David Morse consegue fazer a construção do homem que sofre um acidente e fica meio molóide. Cody Hanford o amigo de Dakota segura bem o papel. Piper Laurie que interpreta a vó de Lewellen está magnífica, sendo talvez a única personagem que com suas ações, tem um maior controle sobre a personalidade da garota. Por fim o ator negro Afemo Omilami também está confortável no papel, nada espetacular, mas nada péssimo também.

O filme se passa nos final dos anos 50, no Sul dos Estados Unidos, eu particularmente gosto muito desse tipo de filme, que envolve o jazz, os negros norte-americanos e as pessoas do campo.

Praticamente todo o filme se passa em uma pequena área no campo entre um rio, a casa da personagem principal e as imediações. Essa sensação bucólica, campo e natureza é uma coisa que eu gosto e me delício em ver nos filmes, ainda mais pelo fato de ter uma fotografia muito boa, onde há uma exposição maior do amarelo. As cenas ficaram com uma tonalidade muito bonita e agradável.

A história é sobre uma garota precoce que é fã do cantor Elvis Presley, e em sua jornada vai descobrindo as dificuldades que a cercam. Básico em todo filme de drama, já vimos isso em um zilhão de filmes, mas por mais estranho que parece, nós, ou pelo menos eu, ainda gosto de ver.

Mas como sempre tudo tem algo de bom e nesse filme não seria diferente, a primeira delas é o choque de culturas, os negros e os brancos. Já no início do filme vemos Lewellen (Dakota Fanning) cantando uma música do Elvis em cima de uma árvore, música essa que ela canta quase toda hora no filme, já que é a arma que ela usa para fugir dos problemas e conflitos do dia-a-dia, nesta cena vemos Charles (Afemo Omilami), travar o seguinte diálogo com ela:

- Menina, vai cair dessa árvore e quebrar as costas. - Charles

- Quanto mais devo pedir para não cantar mais nada do Elvis? Quando vai cantar um “Blues” de verdade? - Charles

- Não posso cantar Blues. – responde Lewellen

- Porque não? – pergunta Charles

- Não sou negra. – responde Lewellen

- Não é? – Charles

- Não, não sou – fala Lewellen

- Pensei que fosse – diz Charles

- O Elvis é um cara branco cantando músicas de negros. Por isso é uma garota branca cantando músicas de negros. Só quero que saiba que há mais coisas no mundo além de Elvis.

Com se existisse realmente uma música para branco e para negro. Musica é música. Via de regra, são as pessoas que constroem as propagandas e inserem estas idéias através das mesmas. Então temos essa separação racial, já deflagrando ai o modo de vida dos negros e brancos da época em que se passa o filme. E parece que não mudou muito até hoje, da mesma maneira, e eu não vou entrar no mérito da questão, a roteirista (Deborah Kampmaier) mostra aqui a sua opinião, que me pareceu ser a de que Elvis não é um blues verdadeiro, e que a música que ele cantava foi criada pelos negros e que os brancos só passaram a cantar a música dos negros porque um branco começou a cantar. O que nos mostra, mais uma vez, a segregação racial e o preconceito que existia na época em ralação aos negros por parte dos brancos, como a jogada de propaganda em cima do cantor Elvis, o que talvez o tenha transformado no ícone que é conhecido hoje. E pra finalizar, deixa sutilmente uma coisa que sempre que me falam de Elvis ou de Michael Jackson, eu tento explicar, tudo bem que eram competentes, mas não eram nem o melhor, e muito menos a única coisa que existia, mas as pessoas em sua maioria só sabem o que a mídia apresenta e deixa muitas vezes de apreciar e se divertir com muitas outras coisas. Em uma cena vemos Leweelen (e são raros esses momentos), feliz, exatamente vendo uma mulher negra cantando um blues com Charles e seus amigos, foi talvez o segundo momento mais alegre da garota em todo filme, perdendo somente para a cena que Elvis manda um beijo para ela passando de carro pela estrada.

No início da projeção também vemos, a Lewellen garota precoce que gosta de fazer joguinhos, e colocar pulgas atrás da orelha e até no espectador, eu acho que ela consegue, pois pelo menos eu estou incucado com uma coisa, ela diz para seu amigo Buddy (Cody Hanford) que a cicatriz que ele possui é igual a dela, e que a dela tinha sido ocasionada pela agressão do pai, mas no restante do filme, mostra o pai carinhoso com ela, embora não seja com as namoradas, isso talvez seja uma forma da menina fantasiar as coisas para superar os seus problemas. Coisa que fica clara na fantasia que ela desenvolve com seu amigo Buddy, em que ela fala que é uma dançarina e que vai dançar para o Elvis em um show em sua cidade e que Elvis irá levar ela com ele. Em muitos momentos a personagem fantasia coisas do tipo, o que para mim que não sou psicólogo me parece uma maneira de fugir da realidade conturbada em que vive. A sua dificuldade de lidar com a situação de ser pobre e apesar de ser precoce, mas mesmo assim uma criança, não poder ser bailarina do Elvis, uma por não ter condições de fazer uma aula de dança e outra por não ter idade para isso. Mostra também o conflito da família, o pai um homem amargurado, que tem uma caso com a cunhada e a pobreza da família, o que é evidenciado na cena em que Lewellen e Buddy estão colhendo frutas para fazer a geléia da avó, e essas frutas estavam sendo colhidas (ou melhor roubadas como nos confirma Lewellen), de uma propriedade, uma mansão na região, e os dois interagem com uma garota que estava passando férias na casa, e podemos ver essa diferença de padrões sócio-econômico.

O filme segue mostrando a violência do pai, com o que depois ficamos sabendo que é a sua cunhada, e que tinha um caso com o pai de Lewellen marido de sua irmã, o que ocasionou a morte da mãe de Lewellen, até que chegamos a cena que dá origem a foto maior da capa, que é uma cena muito boa, que pra mim constrói muito bem a simbologia da mulher presa em um corpo de menina, aqui nós vemos de uma maneira mais concreta a construção da fantasia, onde Lewellen e Buddy encontram um carro na estrada, entram dentro dele e simulam estar viajando como um casal pela estrada. Lewellen pega então um cigarro e coloca na boca, logo depois encontra uma mala no banco traseiro e começa a vestir as roupas e a calçar os sapatos construindo de maneira visual a menina vestida como uma adulta e fantasiando ser uma adulta. Logo em seguida vemos o carro ser suspenso pelo guincho e descobrimos que sua tia estava fugindo com o motorista do reboque. Lewellen pede para que ela a leve dali, e ai vemos uma cena muito boa em que a garota simplesmente se comporta realmente como uma adulta em um dialogo que deixa a sua tia sem lugar dentro do carro, o que é interessante, essa coisa da menina-mulher, porque de maneira inversa eu vejo a tia como uma mulher-menina, melindrosa, chorona, frágil (como vemos na cena em que implora a ajuda da mãe), totalmente submissa aos namorados. Enfim, nesta cena vemos a garota que supera e se comporta muito mais como uma mulher do que a personagem mulher, sua tia, até mesmo deixando a adulta sem palavras, o que reforça a capacidade de construção simbólica e do conflito do roteiro.

Uma coisa que eu sempre vejo nos filmes que envolvem essa temática, não são todos é lógico, mas pelo menos os que mostram os negros no campo, não em centros urbanos como Nova York (talvez seja uma questão antropológica) é a personalidade e comportamento dos negros e dos brancos diante das dificuldades da vida. Quando fiz o curso de Design me ensinaram a fazer pesquisas para se construir o conceito e o tema, portanto acredito que a roteirista deva ter feito também, e isso é comum em filmes que retratam os negros e os branco e o universo do blues. O que eu vejo sutilmente nos roteiros é que os brancos são normalmente pessoas problemáticas psicologicamente, cheia de conflitos e muito violentas, tanto consigo mesmas quanto com os outros brancos, homens que batem em mulher, homens beberrões, briguentos, abaláveis por qualquer conflito familiar ou social, porém, já mostram os negros como um povo mais unido e mais alegre, sempre disposto a superar as dificuldades de cabeça erguida, apesar de serem tratados como lixo. É lógico que não podemos generalizar, como podemos ver na história de Milles Davis por exemplo, que era um tanto problemático e amargurado, mas essa visão é muito explorada, pode ter um fundo de verdade, o que desconstrói um pouco o que a mídia apresenta hoje em dia. Os negros se matando na África e nos subúrbios americanos.

Voltando a questão da cobra, aproveitando a coisa da capa, bem lá no início do filme, durante os créditos, tem uma cobra subindo em uma árvore, no filme inteiro há cobras, o personagem de Charles, é uma espécie de curandeiro que faz vários remédios, pomadas e ungüentos com as plantas e mais do que isso, o cara faz soro antiofídico, mais uma coisa que mostra os negros mais preparados que os brancos, que inclusive com relação a esse personagem, mostra um negro capaz, inteligente, trabalhador, e dotado de uma sabedoria invejosa e além disso tudo ele ainda é tipo um psicólogo, filosofo e caridoso, pois sempre é ele que ajuda os brancos que estão, via de regra, se metendo em confusão ou não sabem lidar, como por exemplo, com a picada de uma cobra. Mas voltando a questão da cobra, em um momento do filme vemos Charles falar uma coisa, que para mim, de maneira metafórica explica todo o filme e ainda mostra uma questão profunda sobre um aspecto da vida, vemos na cena o seguinte, Lewellen está sentada em um tronco de árvore de noite e vemos Charles falar “Sentindo o Espírito da escuridão? Estou pensando em cobras. A Medicina da serpente é rara. A sua iniciação, vem de terem sofrido muitas picadas de cobras. Faz com que o homem transforme seus venenos, veneno no corpo, na mente e no coração. Veneno na alma, transforma o veneno que pode matar, numa coisa poderosa e boa.” . Resumidamente nessa explicação está toda a questão do filme para mim, mais uma vez vemos os negros com uma capacidade de reflexão maior do que o branco, isso devido a sua tradição, coisa que todo mundo quase sabe, que o misticismo e a tradição dos povos africanos é toda voltada para a natureza e suas forças, principalmente as invisíveis, mas essa reflexão de Charles nos mostra previamente o que o filme quer apresentar, que as picadas são as feridas que a vida deixa nas pessoas, é a iniciação do homem (enquanto ser humano, não relacionado ao sexo), a dura iniciação para nos transformar em homens de verdade, iniciação do sofrimento das dificuldade que temos que atravessar, transformando o veneno deixado em coisas poderosas e boas, porque se não conseguirmos fazer essa “alquimia” é provável que o veneno nos mate, e tanto sintetiza o filme que a protagonista passa por todo tipo de dificuldade (picadas), culminando em ser violentada na tentativa de conseguir um ingresso para assistir ao show do Elvis, e depois ela se fecha e não consegue mais lidar e nem fantasiar uma fuga, o que a leva a ficar de cama, e ai o filme mostra o seu momento mais místico, em que aparece Lewellen deitada na cama e um monte de cobras entrando pela janela, e se amontoando em volta do seu corpo. No que Charles ouve Buddy e os amigos conversando, na hora ele já entende o que está se passando com a garota, Charles vai até a casa dela e a retira da cama e a pega no colo, e temos ai mais uma cena que mostra a sabedoria do negro no diálogo:

- O que vai fazer com esse vazio? Aquilo que amava foi violado e roubado de você. Tem um vazio aí. O que vai fazer com isso? - Charles

- Cala a Boca – Lewellen

- Todo esse espaço vazio deve ser preenchido para que não se torne mau. Ou ficam maus e te comam viva. Maus.– Charles

- Você é só um preto, sabia? Só um preto. – fala Lewellen

- Você também, menina. – retruca Charles

- Não, eu não... – fala Lewellen

- É sim. – diz Charles

- E fez acreditar que não era. A forma como você é tratada faz de você um negro. A maneira como te olham, insultam e cospem em você, as pessoas tentam fazer com que as odeie, tirando-lhe as coisas que mais ama. – fala Charles

- Vai deixar? – pergunta Charles

- Não digo que a vida não é dura como é, mas não os pode deixar ganhar. – diz Charles

- Deixe-me em paz. – grita Lewellen

- Não pode deixa que roubem o seu espírito. – fala Charles

Bom concluímos ai que as “picadas” são a nossa iniciação, mas temos que enfrentá-las, não podemos deixar que as “picadas” provocadas pelas pessoas e suas ações para conosco matem o nosso espírito. Não podemos deixar que isso aconteça, temos que transmutar o veneno, concluindo assim a iniciação e porque não talvez o rito de passagem de Lewellen a idade adulta e a sua transformação em mulher.

Lewellen então aceita ir cantar a música de Elvis, aquela música que ela sempre cantava, para Charles e seus amigos de banda, e nesta cena vemos Lewellen dizer que não conseguia dançar e cantar mais, o que pode ser indicativo de que ela tenha superado as coisas de antes, as coisas de criança, agora como uma mulher não consegue mais fazer essas coisas. Mais uma vez, Charles em sua sabedoria a aconselha dizendo que ela não precisa dançar, e que se ela procurar nas profundezas do seu ser a música vai estar lá, o que é psicologicamente certo, a questão da castração do comportamento infantil na passagem para a vida adulta, não precisamos deixar de ser criança totalmente para sermos adultos, e que lá no fundo nós podemos fazer uso dos comportamentos e fantasias de outrora para continuarmos, obviamente com a visão apurada de uma adulto desta vez, e então Lewellen começa a cantar, uma canção que tem tudo a ver com a trajetória dela no filme, que diz assim:

“Você é um cão de caça chorando o tempo todo, você nunca pegou um coelho, e não é amigo meu. Você não passa de um cão de caça chorando o tempo todo, você nunca pegou um coelho e você não é amigo meu. ... Quando disseram que não tinha classe, mas foi apenas mentira. Você nunca pegou um coelho e não é amigo meu.”

É Lewellen colocando para fora o sofrimento causado por aquele que ela acreditava ser o seu melhor amigo, e não só isso, mas de maneira mais profunda podemos dizer que os sofrimentos dos homens normalmente são causados por aqueles que julgamos ser nossos amigos ou as pessoas mais próximas de nós.

Basicamente é isso, aconselho demais o filme, apesar de ser um drama é gostoso de assistir, tem uma trilha bacana, uma fotografia agradável. É um bom programa para um fim de semana à noite, deitado na cama. As mulheres principalmente vão gostar mais do filme, devido o roteiro ser escrito por uma mulher e por se tratar de todo esse processo de iniciação de uma menina, criando assim uma maior identificação com essa parcela do público, mas também para os marmanjos que tem alguma sensibilidade e nenhum preconceito com esse tipo de narrativa, mas para os brutamontes também tem coisas que possam lhes agradar, tem pra todos os gostos. E mérito total para a roteirista e diretora, por sua sensibilidade e apuro em construir símbolos tão fortes.



Ficha Técnica:

Título Original: Hounddog realnost / País de Origem: USA / Gênero: Drama
Tempo de Duração: 100 minutos / Ano de Lançamento: 2007
Estúdio/Distrib.: Deerjen Films / Direção: Deborah Kampmeier

Elenco:

Dakota Fanning - Lewellen / Isabelle Fuhrman - Grasshopper / Cody Hanford - Buddy
Piper Laurie - Grammie / David Morse - Daddy / Afemo Omilami - Charles
Ryan Pelton - Elvis Presley / Ron Prather - Truckdriver / Christoph Sanders - Wooden's Boy
Jill Scott - Big moma thornton / Frank Hoyt Taylor - Doctor / Jody Thompson - Preacher
Robin Wright Penn - Stranger Lady

Sinopse:

No final dos anos 50, no sul dos Estados Unidos, Lewellen (Dakota Fanning) uma garota precoce e perturbada encontra nas músicas de Elvis Presley uma forma de superar o traumas de sua vida.

A Estrada (The Road) - 2009



Antes de qualquer comentário farei algumas recomendações. Não aconselho esse filme para ninguém que seja impressionável demais e que tenha tendências a absorver o conteúdo das histórias pois, pelo menos para mim, esse filme é como ser espancado.

O Filme não tem crédito inicial, só o nome do filme, então não tem o que ser dito a respeito.

A capa é bem construída, toda em tons de cinza, mostrando os dois personagens principais sujos e caminhando com um fundo desfocado, cumpre o seu papel de mostrar a desolação e construir o conceito da caminhada dos personagens pela tal estrada do título, no futuro pós apocalíptico da história.

Trilha sonora bem arranjada para o tema, composta de sintetizadores, criando um ar melancólico para as cenas, para quem gosta de saber mais sobre os responsáveis pela trilha sonora dos filmes, o responsável pela composição é o já conhecido e parceiro de Hillcoat, o polêmico e australiano Nick Cave, responsável pelo roteiro de um outro filme dirigido por Hillcoat, “A PROPOSTA”.

Direção (John Hillcoat) segura, e muito bem conduzida, conseguindo transpor o clima de desolação exigido pelo roteiro. O diretor de fotografia soube escolher muito bem a fotografia do filme, em um tom quase monocromático, vez ou outra no decorrer do filme podemos ver alguns momentos de extremo contraste, como na cena de um riacho filmado de cima de uma ponte e podemos perceber a água com uma coloração quase verde-limão, e algumas cenas são muito bem construídas, quase poéticas, acompanhando o roteiro (Comac McCarthy e Joe Penhall).

O filme ainda conta com a atuação de bons atores. Viggo Mortensen conseguiu captar bem o espírito de seu personagem, Kodi Smit-McPhee por ser uma criança interpretando um papel tão denso se saiu muito bem, certamente associado ao seu talento a direção deve ter ajudado muito, e Charlize Theron que tem um participação modesta esta bem também, como sempre. Os outros atores cumprem os seus poucos momentos com maestria, destacando o ator negro que aparece quase no final, que consegue passar uma sensação de desespero convincente.

Esse filme, na minha opinião, é excelente! Daria para escrever páginas de reflexões sobre ele, então irei fazer algumas que eu achei que poderiam ter algo de valioso. Começando por uma comparação aos filmes do gênero, nos últimos anos houveram vários filmes catástrofes em que acontecem se não o fim do mundo uma parcial destruição do mesmo, seja lá de que maneira for, mas o grande problema desses filmes é que eles não convencem, focam demais na destruição visceral a ponto de cometer coisas absurda como no 2012 em que está ocorrendo um terremoto gigantesco a ponto de afundar a cidade inteira, e o personagem de John Cusak atravessa a cidade dirigindo uma limusine com a sua família. Primeiro, o carro nem ia conseguir andar com tal intensidade, e outra coisa que simplesmente mostra a falta de competência desses diretores, o clima do filme não convence que está acontecendo uma catástrofe dessas proporções, onde que um ser humano ia ver tudo indo pelos ares, prédio, cidade, e fica fazendo piadinhas... não cola. Você não tem uma sensação real de calamidade, e eu vejo várias pessoas falando que esses filmes são excelentes, tá certo que gosto é gosto e cada um tem o seu.

Para quem não sabe, o roteiro é baseado no romance de Cormac McCarthy, vencedor do Pulitzer de 2007. Mesmo escritor de 'Onde os Fracos não Têm Vez'.

Então é nesse ponto do filme, o roteiro, que eu vou me ater, vou comentando e fazendo as reflexões que me vem à mente. O filme começa mostrando cenas de um casal alegre e feliz, em uma casa que parece ser de campo com flores e aquela sensação bucólica. De repente, corta para nos mostrar que essas imagens eram um sonho de um homem (Viggo Mortensen, não terá o nome dos personagem e sim o dos atores porque não se fala os nome no filme), e ai já em um ambiente exatamente oposto ao do início, um lugar escuro, sujo, sem cor, mesmo sendo o mesmo lugar do sonho, a casa do personagem de Viggo. Mostra que algo acontece, transformando o mundo no cenário apocalíptico que vemos no decorrer do filme, mas não apresenta um motivo e nem uma explicação, mas, no decorrer do filme vamos vendo algumas possibilidades sendo semi esclarecidas e até mesmo o porque o roteirista omite essa informação e não entra no mérito da questão como é de costume em filmes do gênero, mas no decorrer do comentário vou mostrando o porque eu acho isso e porque isso é tão interessante na construção do roteiro.

Estamos então neste mundo desolado, devastado por uma catástrofe, provavelmente de origem climática, em que praticamente toda a fauna e flora do planeta esta morta, o importante e o interessante do filme é exatamente a captação da atmosfera e da sensação que passa, de total desolação, tristeza, angustia e solidão, em que o mundo se transforma, e o roteiro não se perde em explicações que não importam mais, vão seguindo as conseqüências decorrentes, e a conseqüente transformação e jornada dos personagem seguindo essa estrada que provavelmente da nome ao filme.

Vou usar diálogos e pensamentos dos personagens para expor as minhas idéias e exemplificar ao invés de ficar contando o filme em seus pormenores. Então, pulando essas explicações, o personagem de Viggo Mortensen nos diz “Não tenho um calendário a anos”... “Cada dia é mais cinza do que o anterior. Está frio e ficando cada vez mais frio enquanto o mundo morre lentamente.”, só esse pequeno trecho já basta para imaginarmos o espírito que o diretor e roteirista querem nos passar.

Nisso, o filme vai mostrando os dois personagem principais seguindo por uma estrada, com narração em off, as reflexões do personagem de Viggo, em que ele apresenta a nova preocupação dos homens nesse cenário, que é a busca constante por comida e água, e num dado momento ele diz “Então começou o canibalismo, canibalismo é o grande medo.”, o medo do canibalismo é tão grande que sempre que há uma possibilidade deles encontrarem com alguém ou algum grupo de pessoas, o personagem de Viggo Mortensen já prepara o filho para o suicídio, que é outro tema recorrente no filme, mas depois chegamos lá. O que verdadeiramente podemos refletir sobre a questão do canibalismo e que aparece sutilmente no roteiro, é o despreparo do ser humano diante de uma situação tão trágica, já não basta o caos que se apresenta, ainda arrumam outras formas de terror, como a violência gratuita, o canibalismo, deflagrando assim o desespero e a falta de segurança do homem diante da morte iminente a ponto de deixar para trás toda a sua civilidade e humanidade e passar a predar os seus próprios.

Mas o homem não é capaz de produzir o terror somente em suas ações mais diretas, mas, também em forma de terror psicológico. No decorrer do filme vemos campos e paisagens decoradas com cabeças fincadas em estacas e uma placa que aparece escrito “Eis o vale do Massacre” Jeremias, 19:6, ou seja, apresentando para aqueles que estão chegando que ali é um local onde aconteceu um massacre e que você pode ser mais um. Como se os sobreviventes já não tivessem problemas suficientes para se preocupar.

O roteiro também nos mostra, de maneira sutil, como as nossas preocupações podem se alterar diante de determinadas situações como essa, e aquilo que antes era importante, passa a não ter mais importância alguma. Em uma das cenas, os personagens passam sobre várias notas de dólares que estavam em uma caixa sem dar a menor importância, se isso fosse antes do cataclisma, os dólares seriam o objeto mais cobiçado, mas os personagens estavam mais interessados em capturar insetos e o que mais fosse possível para comer e se aquecer. Vejo isso como uma crítica indireta ao capitalismo e ao consumo desenfreado proporcionado por sua política, talvez o roteirista esteja querendo nos dizer: “cuidado um dia isso (dinheiro) que damos tanta importância pode não ter importância nenhuma amanhã”.

Mostra também como o ser humano se esquece do passado e das coisas, a impermanência não só da vida física, mas como dos pensamentos e lembranças. Em suas reflexões o personagem de Viggo Mortensen diz “As vezes eu conto ao garoto velhas estórias de coragem e justiça. Elas são difíceis de lembrar.”, é difícil de lembrar e para o garoto que nem chegou a vive-las é quase impossível entender, assim como para nós de hoje, talvez seja difícil compreender os mitos e as lendas de civilizações passadas, porque a realidade já é outra e nós não vivenciamos tais coisas.

O roteiro usa de maneira inteligente o recurso de flashbacks para contar a história do personagem de Viggo Mortensen e nos apresentar a história ocorrida com a sua esposa. Esses flashbacks são apresentados em forma de sonhos do personagem, o que pode ser até simbólico. Em uma situação como essa, o máximo que se pode fazer é sonhar com o que teve antes, pois o tempo não volta atrás. O que é importante até mesmo para nós que não vivenciamos tal situação, pois um dia poderemos viver algo assim.

O filme continua seguindo os personagens pela sua jornada em busca do litoral. Em meio a sua jornada, nos apresenta suas personalidades e como as pessoas lidam, em suas diferentes maneiras, com os problemas. Mostra o personagem de Viggo Mortensen como um homem com grande força de vontade em sobreviver, determinado e bom. Mostra aqueles que cedem aos seus impulsos mais animalescos, os canibais e assassinos que vão se formando pelo caminho, e mostra também aqueles que não querem ser nem um e nem outro e preferem o suicídio, que é o caso de sua mulher Charlize Theron. Esse é um tema recorrente no filme, várias passagens mostram pessoas que se suicidaram, famílias inteiras. A própria jornada dos dois personagens, pai e filho, esta constantemente cercada pela iminência do suicídio. A respeito disso podemos destacar nas palavras da esposa o seguinte dialogo, em uma mesa de jantar logo quando ela toma a resolução dessa atitude, ela tenta convencê-lo de que essa é a melhor saída, mas o esposo diz a ela: “Mas nós temos que continuar sobrevivendo”, e ela responde: “É isso que você quer? Que sobrevivamos? Eu não quero sobreviver”, e por que disso, em uma cena anterior nesta mesma circunstancia ela diz “Que tipo de vida é essa.”, ou seja o máximo que se pode fazer é ir sobrevivendo, porque já não existe dignidade quase nenhuma, não existe brilho, nem cor, nem vontade de se viver em um mundo dessa maneira, e mas a frente vemos o filho dizer que pensava em morrer, o seu pai fala para ele não pensar nisso, e o garoto retruca dizendo que era inevitável, ele não conseguia parar de pensar naquilo, e como poderia parar de pensar, aonde quer que se vá o cenário só nos mostra desolação.

E isso é só mais um motivo para nos repensarmos a nossas atitudes e ações do dia-a-dia, meus amigos internautas, porque aquilo que nós parece estar ruim hoje, podem um dia ser muito pior e vamos ficar somente sonhando com aquilo que se passou.

E o filme continua por duas horas a nós expor todo esse panorama melancólico e desolador. Mas nem tudo é um mar de tristeza, e tem mesmo que em poucos momentos, mensagens positivas. Nas muitas vezes que o menino se mostra muito humano e sempre disposto a ajudar os outros, no momento em que eles acham um bunker cheio de comida, tomam banho quente e vivem por uns três dias uma vida mais digna e alegre com apenas coisas simples, comida e água, coisas que para nós hoje são consideradas banais, porque temos em abundância, mas pelo que tudo indica, não vai ser assim para sempre, e se não for com nós, os nossos filhos ou nossos netos e bisnetos podem se deparar com uma situação tipo essa. Na maioria das vezes, não paramos para pensar nisso, mantendo a nossa perspectiva de vida de maneira mesquinha, pensando somente no tempo em que decorre a nossa vida e nos esquecemos daqueles que nós mesmos deixamos aqui. Deixo aqui uma parte inspiradora do roteiro, em uma cena que o garoto questiona para seu pai se eles ainda são os mocinhos. O pai responde que sim e que “Temos que continuar carregando a chama”, e o garoto pergunta “Que chama?”, e o pai responde “A chama dentro de você”, ai vocês podem ter as suas interpretações pessoais sobre esse pequeno símbolo que o roteirista nos apresenta.

Mais uma coisa que eu achei muito bom no roteiro, e pra variar de maneira sutil, em uma das reflexões de Viggo, ele diz “Todo dia é uma mentira, estou morrendo lentamente.”, uma porque realmente ele estava doente, tuberculoso, eu acho, e realmente sabia que cedo ou tarde ia morrer, outra porque o próprio personagem vai morrendo internamente, ele vai cedendo as dificuldades e vai perdendo aos poucos a sua humanidade e talvez a chama da qual ele se refere, a ponto de negar comida a um velho e seu filho ter de implorar para que ele não deixasse um outro homem (o personagem negro quase no fim do filme) sem roupa no frio, mas que com certeza era bom de coração e havia deixado o garoto vivo, não o canibalizou. Em alguns momentos o garoto fica em dúvida e questiona a seu pai se eles ainda eram os caras bons, provavelmente já percebendo a transformação do pai.

E como não poderia deixar de ser, apresenta também alguma questão sobre a religião e a crença em um deus exterior, o que não me parece ser o escritor do livro e o roteirista um homem de todo cético, por outras referências, mas vou transpor um dialogo entre Viggo e um velho (Robert Duvall) que acham no caminho. Por influência do garoto, seu pai resolve dar alimento ao velho e seguirem juntos, mas durante a noite, em uma conversa surge a questão de Deus e ainda mais o que talvez seja a perda de esperança e da fé em uma situação dessas, também no diálogo ouvimos o velho dizer que o homem talvez tenha sido negligente e quem sabe até mesmo responsável por aquela situação, por sua mania de colocar panos quentes em tudo e fingir que não está vendo aquilo que está diante dos olhos dele. Segue-se então o dialogo:

- Sabia que isto estava vindo. Isto ou algo parecido, houveram avisos, alguns pensaram que era piada. Eu sempre acreditei. – Diz o velho.

- Tentou se preparar para isto? – Pergunta Virgo.

- O que você faria? Até se soubesse o que fazer não saberia como fazer. Imagine... que é o único sobrevivente. – Responde o velho.

- Como saberia que é o único sobrevivente? – Pergunta Virgo.

- Apenas saberia, eu acho – Responde o Velho.

- Talvez Deus saiba – Diz Virgo.

- Deus sabe o que? O que Deus saberia? O que Ele sabe? Se existe um Deus, a esta hora já teria dado as costas para nós. Quem criou a humanidade não a encontrará aqui. Não senhor. Então tenha cuidado, tenha cuidado. – Retruca o velho.

E ai já estamos quase no fim, não vou contar o final do filme porque ai já seria demais, só finalizo dizendo que pra mim é um filme que realmente passa a sensação do fim do mundo, ou pelo menos do iminente e possível quase fim do mundo, mas se não for o fim do mundo provavelmente é uma mudança de paradigma para aqueles que viveram o processo. Deixo também a dica para que assistam, apesar da sensação de melancolia e da tristeza que remete, pois nos faz refletir o que um dia pode nos vir acontecer, e o quanto nós devemos estar preparados para enfrentar as dificuldades, que não são somente físicas como os outros filmes mostram, mas talvez até mais psicológicas, pois o homem é um animal que ainda não aprendeu a usar e interagir com o que ele tem de melhor, que é a mente. E é essa mesma mente que faz com que ele percorra estradas maravilhosas, faz com que caminhe por estradas obscuras e tenebrosas da percepção e capacidades humanas. Parafrasendo algumas doutrinas espiritualistas “A MESMA LUZ QUE VEM PARA CLAREAR É A QUE PODE TE LEVAR PARA A ESCURIDÃO”.



Ficha Técnica:

Título no Brasil: A Estrada / Título Original: The Road / País de Origem: EUA 
Gênero: Aventura, Drama, Suspense / Tempo de Duração: 112 minutos 
Ano de Lançamento: 2009 / Site Oficial: http://www.theroad-movie.com 
Estúdio/Distrib.: Paris Filmes / Direção: John Hillcoat / Nota no IMDB: 7.9

Elenco:

Viggo Mortensen ... Man / Kodi Smit-McPhee ... Boy / Robert Duvall ... Old Man
Guy Pearce ... Veteran / Molly Parker ... Motherly Woman / Michael K. Williams ... The Thief
Garret Dillahunt ... Gang Member / Charlize Theron ... Woman / Bob Jennings ... Bearded Man
Agnes Herrmann ... Archer's Woman / Buddy Sosthand ... Archer / Kirk Brown ... Bearded Face
Jack Erdie ... Bearded Man #2 / David August Lindauer ... Man On Mattress
Gina Preciado ... Well Fed Woman / Mary Rawson ... Well Fed Woman #2
Jeremy Ambler ... Man In Cellar #1 / Chaz Moneypenny ... Man In Cellar #2
Kacey Byrne-Houser ... Woman In Cellar #2 / Brenna Roth ... Road Gang Member
Jarrod DiGiorgi ... Well Fed Man / Mark Tierno ... Baby Eater

Sinopse:

Um evento cataclísmico atingiu a terra, devastando-a por completo. Milhões de pessoas foram erradicadas por incêndios, inundações, a energia elétrica se acabou e outras morreram de fome e desespero. Um pai e seu filho resolvem partir em uma longa viagem pela América destruída, em direção ao oceano, em uma épica jornada de sobrevivência nesse mundo pós-apocalíptico. Os dois devem permanecer unidos, contando com uma imensa força de vontade que mantém suas esperanças vivas, não importa a qual custo, para enfrentar todos os obstáculos, desde as condições adversas de temperatura até uma gangue de caçadores canibais. Baseado no livro best-seller de Cormac McCarthy.